"Use seu privilégio para dizer ao mundo que existimos". Leia a entrevista com a autora trans Daniele Cavalcante


Daniele escreve sobre ciência e tecnologia no CanalTech e imaginava histórias desde criança, até resolver transformá-las em textos. A escrita para ela sempre foi uma ferramenta contra a solidão. É autora da coletânea de contos Sombras Noturnas.

Leia a entrevista completa que fizemos com ela:

CADÊ LGBT: Por que você resolveu começar a escrever?

Penso que foi uma série de fatores. Em primeiro lugar, a solidão da minha infância me fez sonhadora. Eu criava histórias na minha cabeça, mais ou menos como no filme “A Vida Secreta de Walter Mitty”. Eu imaginava histórias onde as crianças da minha idade eram meus amigos e vivíamos aventura. Então decidi transformar algumas dessas aventuras em livros e achei que minha escrita não era ruim. Escrever era um passatempo prazeroso e eu me sentia um pouco menos solitária. E também tinha desenhos como Duck Tales e filmes como Cinema Paradiso para instigar ainda mais minha imaginação - o primeiro alimentava minhas fantasias de aventuras e o segundo me ensinava sobre drama. Eu estava na quinta série e tinha cadernos só para escrever essas coisas. 

Outro fator foi meu pai. Ele escrevia livrinhos de cordel, embora nunca deixasse ninguém ler (eu lia escondida). Ele era bom com sextilhas e meu livro favorito dele era uma história sobrenatural e cômica que se passava no nordeste, que foi onde ele nasceu. Talvez a escrita também fosse um modo de me aproximar dele, pois meu pai sempre foi muito distante. Mas era a solidão que sempre me levava a escrever mais e mais.

CADÊ LGBT: Como você vê a importância da literatura para a comunidade LGBTQIA+?

Costumamos dizer que representatividade é importante, mas acredito que nós mesmos temos o poder de fazer isso da maneira mais adequada. É importante que as pessoas LGBTQIA+ sejam vistas como parte dessa sociedade, como seres humanos comuns como outros quaisquer, e acredito que as histórias são uma das ferramentas mais poderosas para isso. Quero dizer, histórias foram usadas por séculos para ensinar e estabelecer uma norma, um padrão, uma visão de mundo, porque elas têm o poder de moldar o senso comum e a nossa noção de realidade. Por isso, vejo a literatura - e arte no geral - feita por pessoas LGBTQIA+ é uma das ferramentas mais eficientes para transformar a mentalidade das pessoas sobre nós - tanto através de nossos personagens LGBTQIA+ quanto através do fato de que esses autores estão saindo das margens da sociedade para se apresentar como artistas.

Por outro lado, a literatura para nós também é uma forma de adquirirmos poder. É um clichê, mas livro nos fornece, de fato, uma forma de poder até difícil de mensurar. Nos ajuda a lutar, a sobreviver. 

Por fim, é muito gratificante ler histórias com as quais nos identificamos - nos sentimos menos sozinhos. Se eu tivesse livros de autoras trans na minha infância, quando comecei a escrever, talvez tivesse sido uma criança mais feliz. Talvez tivesse me entendido trans muito mais cedo.

CADÊ LGBT: Como você enxerga a literatura LGBTQIA+ hoje no Brasil?

Tenho acompanhado pouco ultimamente, mas nos últimos anos estamos crescendo em destaque e em número de autores escrevendo personagens LGBTQIA+. Mas ainda tem muita gente boa tendo que se contentar com plataformas como Wattpad e a auto-publicação. Isso não é necessariamente ruim, as pessoas estão LENDO essas publicações, o que é ótimo. Mas contar com editoras e profissionais do livro ajuda na profissionalização, reconhecimento e distribuição desses autores. Acredito que estamos em uma época bacana, com algumas editoras investindo e obtendo resultados. Estou otimista que vamos melhorar nesse aspecto em alguns anos.

Se eu tivesse livros de autoras trans na minha infância, quando comecei a escrever, talvez tivesse sido uma criança mais feliz. Talvez tivesse me entendido trans muito mais cedo."

CADÊ LGBT: Do que você ainda sente falta na literatura, principalmente em relação a personagens trans?

Mais histórias de fantasia, terror e ficção científica com protagonistas trans. Também gostaria de ver mais mulheres trans lésbicas, homens trans gays, pessoas trans em relações poliamorosas. Vilões trans também é algo que eu adoraria ler. Não precisam ter medo de fazer isso. Eu mesma farei, se ninguém fizer.

CADÊ LGBT: Na sua visão, qual a importância de escrever histórias focadas em pessoas LGBTQIA+?

Acho que acabei respondendo um pouco disso na pergunta 2, então vou direcionar essa para autores não-LGBTQIA+. Escrevam personagens gays, lésbicas, bi, trans, aces, aros e intersexo! Todo mundo tem amigos que fazem parte da nossa comunidade, uma história sem nenhuma dessas identidades soa inverossímil. Sério. 

Além disso, você, que não é LGBTQIA+, tem o privilégio de alcançar pessoas preconceituosas que jamais leriam um livro de autores LGBTQIA+ - mas leriam o seu. Use seu privilégio para dizer ao mundo que existimos, estamos aqui, em toda a parte, e não jogados em um esgoto qualquer com medo de existir. Fazemos parte da sociedade, por que não faríamos parte das suas histórias?

CADÊ LGBT: Defina os personagens trans que você já leu em uma palavra?

Beijáveis

CADÊ LGBT:  E os que você escreveu, qual seria a palavra deles?

Corajosos

CADÊ LGBT: Bom, para finalizar, deixa para nós algumas dicas de histórias com personagens trans (e de autores trans também). As suas favoritas!

Confesso que li poucos até agora - um problema com depressão me afastou da leitura por vários anos, então perdoem a falta de indicações. Só agora começo a voltar à leitura. Mas posso citar “Ela, videogames e muito sobre nós”, do Koda Gabriel, “Asas Noturnas”, da Yueh Fernandes, “Codinome Electra”, da Lady Sybylla.

Copyright © Cadê LGBT. Designed by OddThemes