"Sinto falta de mais diversidade e menos estereótipo". Leia a entrevista com o autor trans Alek Salles


Alek Salles é escritor e estudante de psicologia. É uma pessoa trans não binária e usa pronomes neutros e masculinos. Também é pansexual.

Publicou seu primeiro conto, "Torta de Maçã", em 2019 na antologia O Papai Noel ainda não vem aqui, da editora Resistência. Atualmente está trabalhando em outras histórias, todas com protagonismo LGBTQIA+, em especial trans.

CADÊ LGBT: Por que você resolveu começar a escrever?

Sempre amei escrever. Sou muito criativo e desde criança gosto de criar histórias. Pensei em seguir muitas profissões, mas o sonho de publicar livros nunca me deixou. Acho que ser escritor é parte de mim.

Hoje em dia vejo que é mais do que criatividade, é uma oportunidade de ter voz e impactar as pessoas. Toda forma de arte é uma ferramenta de expressão e resistência das minorias. A minha é a escrita.

CADÊ LGBT: Como você vê a importância da literatura para a comunidade LGBTQIA+?

A importância está principalmente na representatividade. A literatura nos ajuda a se ver em algum lugar e mostrar para o mundo que nós existimos e está tudo bem.

Em todas as mídias, não só na literatura, precisamos parar de retratar indivíduos trans como pessoas “no corpo errado”. Não é assim, nosso corpo está certo, a visão da sociedade que não."

CADÊ LGBT: Como você enxerga a literatura LGBTQIA+ hoje no Brasil?

Escassa. Ainda há muito espaço para histórias LGBTQIA+, principalmente boas histórias, cujas personagens não sejam estereotipadas. Contudo, estamos progredindo bastante. Tenho conhecido muitos escritores novos desse nicho e que fazem um trabalho incrível.

CADÊ LGBT: Do que você ainda sente falta na literatura, principalmente em relação a personagens trans?

Sinto falta de mais diversidade e menos estereótipo. Mostrar que, por exemplo, não é porque a personagem é trans que toda a história dela gira em torno de buscar cirurgias e, principalmente, de parecer cis.

Em todas as mídias, não só na literatura, precisamos parar de retratar indivíduos trans como pessoas “no corpo errado”. Não é assim, nosso corpo está certo, a visão da sociedade que não. E acima de tudo, somos pessoas e temos muitos outros interesses além de tentar parecer com as pessoas cisgêneras.

CADÊ LGBT: Na sua visão, qual a importância de escrever histórias focadas em pessoas LGBTQIA+?

Quebrar a barreira da invisibilidade. Enquanto as histórias só mostrarem pessoas cis, hétero e allosexuais, nós LGBTQIA+ seremos marginalizados. O preconceito começa na invisibilidade, em não nos enxergarem como parte da sociedade.

E nós estamos aqui, sempre estivemos e sempre vamos estar. Só não pode mais ser algo escondido, porque o que as pessoas não veem, elas temem. E isso ajuda muito a perpetuar o preconceito.

A diversidade precisa ser retratada para ser normalizada. E nós, como autores, podemos ajudar nisso. Podemos e devemos usar nossa voz para levar reflexão para outras pessoas e mostrar que nós existimos.

CADÊ LGBT: Defina os personagens trans que você já leu em uma palavra?

Preciso dividir em dois grupos: alguns eram estereotipados e outros inspiradores. Digo isso porque já li histórias que personagens trans apareciam só como aquela pessoa que odeia o próprio corpo e quer modificá-lo ao máximo e também li outras que eu consegui me identificar com o personagem e gostei muito, em particular as que quem escreveu também é uma pessoa trans.

CADÊ LGBT: E os que você escreveu, qual seria a palavra deles?

Plurais, cada um tem suas características e ser trans é apenas uma delas.

CADÊ LGBT: Bom, para finalizar, deixa para nós algumas dicas de histórias com personagens trans (e de autores trans também). As suas favoritas!

Eu amo “Camomila” do Ariel F. Hitz. É uma leitura muito gostosa. Ele tem outras ótimas histórias com representatividade trans. “Ela, videogames e muito sobre nós”, do Koda Gabriel é fofo e também tem bastante representatividade. Os dois são autores trans e brasileiros que vale a pena acompanhar.

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