"Quanto mais falarmos, mais barulho fizermos, mais irão nos ouvir." Leia a entrevista com o autor trans Koda Gabriel


Koda tem 22 anos, é trans não-binário negro e brinca de escrever desde que se lembra. Adora livros policiais, jogos emocionantes e sua gata tricolor. Programa para viver, mas também por amor. Escreve por amor, mas também para viver.

Veja a entrevista que fizemos com ele:

CADÊ  LGBT: Por que você resolveu começar a escrever?

Eu comecei escrevendo poemas, eu tinha uns 10 anos. Aprendi na escola o que eram os poemas, e gostei muito. Ai migrei para mini contos, depois para crônicas, voltei para contos... Hoje escrevo o que dá vontade. Escrever pra mim sempre foi um ato de libertar o que está preso na minha cabeça. Muita gente brinca que meus personagens são todos um pouco de mim, e não duvido que seja verdade. Por muito tempo, foi minha única forma de externar o que sentia. Me ajudou a me compreender enquanto pessoa.

CADÊ  LGBT: Como você vê a importância da literatura para a comunidade LGBTQIA+?

Eu vejo como de extrema importância que existam personagens e literatura voltada para a comunidade, que normalizem nossa existência enquanto pessoas dignas de grandes histórias, sejam elas de amor, sobre existência ou fantásticas. Quanto mais literatura voltada para a comunidade, mais se percebe a ideia de que somos pessoas antes de mais nada, e que nossas histórias também são importantes de serem contadas.

CADÊ  LGBT: Como você enxerga a literatura LGBTQIA+ hoje no Brasil?

Sinto que estamos engatinhando, ainda. A maioria dos autores são independentes, ou começaram assim e estão conquistando mais espaço hoje. Há pouco, quiçá nenhum, investimento por parte das editoras, deixando autores LGBTQIA+ desmotivados e sem esperanças. Apesar disso, vejo resistência da nossa parte. A cada conto publicado, a cada livro publicado, seja de forma física independente, em sites, da forma que for. É uma forma de nos colocarmos no mundo, mesmo que agora não deem tanta atenção para nossas histórias e falas. Quanto mais falarmos, mais barulho fizermos, mais irão nos ouvir. É um processo lento, mas acredito que estamos no caminho certo.

Quanto mais literatura voltada para a comunidade, mais se percebe a ideia de que somos pessoas antes de mais nada".

CADÊ  LGBT: Do que você ainda sente falta na literatura, principalmente em relação a personagens trans?

Eu vejo uma falta de personagens trans inseridos de forma despretensiosa em histórias, com suas vivências normalizadas. E também sinto que quando essa representatividade existe nem sempre ela é feita da perspectiva da realidade de pessoas trans, mas de uma visão cisnormativa do que somos. Desejo mais representatividade, mas também que seja feita em alinhado com o que são pessoas trans, quais são nossas vivências e pautas, e não somente uma visão cis.

CADÊ  LGBT: Na sua visão, qual a importância de escrever histórias focadas em pessoas LGBTQIA+?

É muito importante, em especial como forma de resistência às constantes e inúmeras histórias hétero-cis que temos todos os dias lançadas. Ao centrar uma história em pessoas LGBTQIA+, voltamos o olhar para essa comunidade, damos foco a essas pessoas. Além disso, torna possível que mais pessoas se identifiquem com essas histórias, se descubram enquanto pessoas válidas. Vejam que sexualidades além da hétero e a existência fora da cisnormatividade é algo possível.

CADÊ  LGBT: Defina os personagens trans que você já leu em uma palavra?

Pessoas. Acho que é engraçado falar isso, mas a parte mais legal é que todas as histórias que eu li são bem naturais na transgeneridade, então eu sinto que eles são apenas pessoas cuja histórias estou lendo.

CADÊ  LGBT: E os que você escreveu, qual seria a palavra deles?

Renascimento é a palavra. Talvez um clichê para pessoas trans, mas sinto que uma boa parte do que elas são é demarcado pela ideia de renascer ao se descobrir, sair do armário, viver quem realmente são.

CADÊ  LGBT: Bom, para finalizar, deixa para nós algumas dicas de histórias com personagens trans (e de autores trans também). As suas favoritas!

Eu indico todas as histórias do Ariel F H, são muito ricas em representatividade e eu adoro isso nelas. Também indico As Razões de Cris, da Maria Freitas.

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