"Escrever sobre transgeneridade é me sentir livre". Leia a entrevista com o autor trans Ariel F. Hitz


Ariel F. Hitz começou a escrever e a postar histórias na internet aos doze anos. Em 2018, publicou seu primeiro livro de forma independente na Amazon, "A gravidade de Júpiter", além de outros contos. O autor sempre busca criar histórias que representem as mais diversas pessoas, com foco em visibilidade LGBTQ+. Em especial, por ser um homem trans e pansexual, essas duas comunidades.

E o Cadê LGBT conversou um pouquinho com ele sobre livros, personagens trans e muito mais!

CADÊ LGBT: Por que você resolveu começar a escrever?

Eu tinha doze anos e estava em uma época da minha vida em que me sentia deslocado de tudo. Quase não tinha amigos, meus relacionamentos com as pessoas eram superficiais e eu queria fazer algo que me distraísse de tudo. Desde antes disso, eu criava histórias na minha cabeça, mas nunca tinha realmente escrito uma. Acho que, aos doze anos, eu não pensava em mim como uma pessoa que pudesse escrever livros.

Comecei escrevendo fanfic de Harry Potter quando eu nem sabia o que era fanfic. Mas eu não levava a coisa toda muito a sério. Depois disso, conheci o Nyah! Fanfiction. Então, eu passava o dia lendo fanfics de Percy Jackson focadas no meu personagem favorito, o Nico. Foi bem na época em que o autor da saga revelou que o Nico é gay. Pro Ariel de doze anos isso foi um choque. Só a palavra “gay” pra mim já soava como coisa de outro mundo.

Acabou que eu lia muita fanfic com representatividade por culpa do Nico. E, mesmo não sendo gay e muito menos cis, sempre me vi muito nele. Quando descobri que o Nico é gay, isso abriu portas pra mim. Comecei a me questionar. Então, decidi começar a escrever sobre ele também. E foi aí que eu passei a levar a escrita a sério, mesmo sendo com fanfic.

Pra ser bem sincero, escrevo fanfic sobre o Nico até hoje, aos dezenove anos. Com o diferencial é que atualmente eu costumo representar ele como trans também.

Eu diria que o que me fez começar a escrever foi a necessidade de me sentir representado e livre de mim mesmo.

CADÊ LGBT: Como você vê a importância da literatura para a comunidade LGBTQIA+?

Acho que é muito questão de representatividade e de acabar com ideias erradas que as pessoas têm sobre a comunidade.

A literatura tem a função social de também contar um pouco da história do que está acontecendo no momento, de como a sociedade enxerga as coisas. Se você pegar, por exemplo “O bom crioulo”, vai perceber que é um livro absurdamente homofóbico (além de racista). Tem uma parte de um livro do Caio Fernando Abreu em que é meio transfóbico. Mas, na época em que esses livros foram escritos, eles eram até que bem revolucionárias, ninguém veria problema neles. Mas hoje a gente enxerga a problemática neles, e é bom falar sobre. É bom deixar claro que as coisas não são mais como costumavam ser, que hoje a gente é muito mais ciente da nossa posição na sociedade e dos nossos direitos.


Acho que poucas pessoas entenderam que a comunidade trans não quer mais livros sobre pessoas trans odiando seus corpos"

CADÊ LGBT: Como você enxerga a literatura LGBTQIA+ hoje no Brasil?

Falta a gente abraçar nossos escritores LGBT+s e dar visibilidade para eles. A maior parte dos livros LGBT+s que fazem sucesso aqui no Brasil foram escritos por escritores internacionais. A gente tem escritores LGBT+s maravilhosos aqui, só não sabe dar oportunidades para eles.

Eu sinto que as pessoas querem ler livros LGBT+s, mas ficam esperando um grande sucesso para seguir a onda. Acho isso erradíssimo, a gente precisa ir atrás dos escritores menos conhecidos, dos marginalizados, que são os que mais representam bem a comunidade.

CADÊ LGBT: Do que você ainda sente falta na literatura, principalmente em relação a personagens trans?

Eu sinto muita falta de histórias onde o foco da vida dos personagens trans não é sobre ser trans.

Acho que, quando as pessoas querem escrever um personagem trans, no geral, acabam querendo falar só sobre o processo de descoberta, sobre transfobia e sobre disforia corporal. Isso cansa muito. Sem falar que, geralmente, acaba virando só um monte de estereótipos.

Eu quero ler mais sobre pessoas trans que tem problemas que vão além do ser trans, histórias de fantasia com personagens trans, essas coisas.

CADÊ LGBT: Na sua visão, qual a importância de escrever histórias focadas em pessoas LGBTQIA+?

Como uma pessoa que cresceu com quase nada de representatividade LGBT+, acho que esse é um ponto importante. Meu processo de descoberta como homem trans teria sido muito mais fácil se existissem personagens como eu na literatura, onde eu pudesse me enxergar e não me sentir como um alienígena.

Além de que, na escrita, nós, como uma minoria, podemos ensinar muita coisa para quem não tem a nossa vivência. Isso ajuda as pessoas de fora a entenderem a importância da nossa luta.

CADÊ LGBT: Defina os personagens trans que você já leu em uma palavra?

Estereotipados.

É sempre “odeio meu corpo”, “nasci no corpo errado”. É sempre sobre disforia de gênero, nunca sobre euforia. É cansativo começar a ler uma história e dar de cara com o mesmo blá blá blá de estereótipo trans. São raras as exceções disso.

Acho que poucas pessoas entenderam que a comunidade trans não quer mais livros sobre pessoas trans odiando seus corpos. A gente quer ler sobre meninos trans caçando demônios, mulheres trans detetives, não-binários viajando no tempo, coisas assim. Já passou do tempo de escrever personagens trans e resumir eles à sua identidade de gênero.

CADÊ LGBT: E os que você escreveu, qual seria a palavra deles?

Liberdade.

Pra mim, escrever sobre transgeneridade é me sentir livre. E eu quero que meus personagens sejam livres também. Eu sempre tento fugir dos estereótipos, de dizer que eles odeiam seus corpos. Acho que raramente falo disso nas minhas histórias.

CADÊ LGBT: Bom, para finalizar, deixa para nós algumas dicas de histórias com personagens trans (e de autores trans também). As suas favoritas.

O primeiro nome que eu penso quando alguém fala sobre pessoas trans escritoras é Amara Moira. Ela tem um livro chamado “E se eu fosse puta?” em que conta a experiência de vida em ser travesti e prostituta. Eu aprendi muita coisa com esse livro, foi um dos mais importantes na minha vida.

C. Bourbon é um escritor trans fantástico demais, tem dois livros incríveis na Amazon.

Já sobre histórias com personagens trans, a minha favorita é a trilogia Magnus Chase e os deuses de Asgard. Uma das personagens mais importantes nos livros é gênero fluído. Mesmo sendo escrita por um homem cis, a Alex Fierro foi retratada com muito carinho. A representatividade é ótima, a vida da Alex é muito mais do que ser trans, mesmo sendo algo muito abordado no livro.

“Dois garotos se beijando”, do David Levithan tem um personagem trans no meio da história e eu adoro ele. Não é uma grande representatividade, mas é muito bom.

Eu também gosto muito de “George”, de Alex Gino, que é uma pessoa trans também. E “Fera”, do Eric Novello é ótimo. Acho que a história tem alguns problemas, mas mesmo assim é um livro incrível.

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