"É importante que o assunto não se limite a alcançar pessoas LGBTQIA". Leia a entrevista com a autora trans Brenda Bernsau


Brenda Bernsau mora no interior do Rio de Janeiro, onde estuda pedagogia, trabalha e escreve. Seu romance de estreia foi a obra de fantasia “Sophia, Alexia e o mundo além daqui”. Nos anos seguintes, publicou um livro de contos LGBT “Meninas a respeito do amor”, e outro mais para o thriller psicológico chamado “No cosmo, assim como no coração”. Também participou das antologias “Encontros & Reencontros”, “Antologia Resistência” e “Cor Não Tem Gênero”.

Leia a entrevista completa com a autora:

CADÊ LGBT: Por que você resolveu começar a escrever?

Desde muito cedo eu tinha essas histórias, coisas que eu sentia que precisava contar, expressar. É difícil explicar o porquê de ter começado, mas sempre senti algo como uma necessidade mesmo. Quando criança, ganhei uma máquina de escrever e desde então venho inventando personagens e tramas. Um pouco depois, experimentei trabalhar com quadrinhos, porque sempre gostei de desenhar também, mas fui percebendo que minhas limitações com os traços acabavam amarrando as histórias, o que me levou a uma dedicação exclusiva à escrita.

CADÊ LGBT: Como você vê a importância da literatura para a comunidade LGBTQIA+?

A literatura sempre vai nos permitir expressar duas coisas que são fundamentais para a comunidade LGBTQIA: representatividade e crítica social — ou seja, resistência. A literatura nos ajuda a existir e resistir, trazendo personagens LGBTs para a vida, e também nos convidando a refletir, a questionar o modelo atual, a pensar os nossos posicionamentos e a promover nossa união. Ela abre as nossas possibilidades e nos faz ver que podemos estar em qualquer lugar, em qualquer espaço, agindo, fazendo uso da nossa voz.

CADÊ LGBT: Como você enxerga a literatura LGBTQIA+ hoje no Brasil?

Vivemos um momento de transição, eu acredito. Estamos longe do ideal, mas também já avançamos. As pessoas estão acordando e as coisas estão começando a acontecer: autores estão começando a levantar a bandeira em suas obras, leitores estão começando a refletir, a entender, a absorver, a levar adiante. Esse é um período complicado, e por isso muito é exigido da gente, não tem jeito. Mas é um período importantíssimo, porque vai ser decisivo para as gerações futuras, suas expressões artísticas e o quanto disso vai se integrar à sociedade. 


Gostaria de ver mais personagens LGBTQIA nas fantasias em geral, na ficção científica, com outras preocupações, outros conflitos que não envolvam (apenas) o seu gênero ou sexualidade."

CADÊ LGBT: Do que você ainda sente falta na literatura, principalmente em relação a personagens trans?

Talvez de termos uma visão mais ampla da existência trans, de não limitarmos a pessoa trans ao fato dela ser trans. Não que as histórias que façam isso estejam erradas, pelo contrário, eu mesma gosto de escrever coisas assim, mas é importante que o público ganhe novas perspectivas e que personagens trans ganhem novas camadas e interesses. A descoberta, os desafios, os preconceitos, as relações familiares, todos esses assuntos são fundamentais, mas não resumem uma existência. Gostaria de ver mais personagens LGBTQIA nas fantasias em geral, na ficção científica, com outras preocupações, outros conflitos que não envolvam (apenas) o seu gênero ou sexualidade. Isso ajuda a dar um elemento de integração mais orgânico.

CADÊ LGBT: Na sua visão, qual a importância de escrever histórias focadas em pessoas LGBTQIA+?

A importância está na representatividade. Precisamos estar juntos, estar em acordo na nossa luta, precisamos saber que não estamos sozinhos, que o preconceito do mundo é culpa do mundo e não nossa, e que, portanto, precisamos fazer a diferença, ou pelo menos refletir sobre ela. Mas também é importante que o assunto não se limite a alcançar pessoas LGBTQIA, afinal, estamos buscando uma sociedade melhor, mais inclusiva, e isso pede diálogo, pede uma compreensão de todas as partes. De qualquer forma, pessoas da comunidade se tornam mais fortes, mais preparadas e acolhidas através disso... durante a minha adolescência ninguém falava sobre a causa trans, eu não tinha acesso a nenhuma história que apresentasse personagens trans, e sei que muito do meu processo poderia ter sido facilitado caso tivesse.

CADÊ LGBT: Defina os personagens trans que você já leu em uma palavra?

Amores.

CADÊ LGBT:  E os que você escreveu, qual seria a palavra deles?

Corajosos.

CADÊ LGBT: Bom, para finalizar, deixa para nós algumas dicas de histórias com personagens trans (e de autores trans também). As suas favoritas!

Para quem gosta desse gênero mais biográfico, escrevivência, tem “E Se Eu Fosse Puta” da Amara Moira, que é recomendadíssimo. “Dois Garotos se Beijando” e “Apenas uma Garota” também são ótimos. De nacional, tem “Poder Extra G” e principalmente “Singular” da Thati Machado, e “Encontre Joana” (que já devem conhecer). Com menor participação talvez, mas ainda bem interessante, tem o personagem Oshima em “Kafka à Beira Mar”, e universos como de “Quinta Estação”. Uma autora que todos deveriam ler é a Charlie Jane Anders de “Todos os Pássaros no Céu”.

Copyright © Cadê LGBT. Designed by OddThemes