A controversa representação bissexual nos livros de Pretty Little Liars



(Atenção: o texto a seguir contém spoiler sobre a trama da série literária)

Se você gosta de uma leitura carregada de drama, suspense e, principalmente, muito mistério, Pretty Little Liars com certeza é a série para você.

Embora muitas pessoas acreditem que a série de TV se perdeu em suas últimas temporadas e chegou a um caminho não muito crível, nos livros, Sara Shepard conseguiu carregar a história pelos 18 livros (16 regulares e 2 extras) de forma esplendorosa com poucos pontos baixos durante a sua trama.

Mas, apesar da trama sustentável e agradável, a autora conseguiu errar em um ponto que, se você faz parte da comunidade LGBTQIA+, ou simplesmente é um bom entendedor, pode acabar ficando um tanto quanto confusa: a bissexualidade da personagem Emily Fields.

No primeiro arco da série, Emily se envolve romanticamente com sua nova vizinha Maya St. Germain; inicialmente fica claro que Emily é lésbica porque, apesar de anteriormente ter estado em um relacionamento com um garoto, colega da equipe de natação, ela nunca gostou dele realmente e nem pensava que poderia se interessar por outros garotos. E, então, cada vez mais, Emily se envolve com Maya e quando sua sexualidade é exposta por A para todos os presentes em uma competição de natação, não há mais nenhuma questão de identificação a ser levada em conta.

E nós leitores não poderíamos estar mais errados. 

Depois que o romance com Maya não dá certo no primeiro arco da série, seguimos Emily logo no segundo e o seu envolvimento avassalador com Isaac Colbert. Desde o primeiro momento que Emily vê Isaac junto com o grupo musical na igreja em que sua mãe frequenta, percebemos que há um clima entre os dois.

Emily fica um pouco assustada com tudo o que acontece a seguir, o sentimento que rola entre os dois, porque obviamente ela está passando por uma descoberta totalmente inesperada. Mas, quando tem seus sentimentos pelo garoto afirmados a si mesma, Emily começa a contar para os outros. Emily e Isaac acabaram não ficando juntos por muito tempo, por causa de toda a loucura envolvendo A, mas logo a frente descobrimos que a história dos dois acabou resultando na gravidez da garota (ponto importante que tocaremos mais a frente).

Logo depois de o romance com Isaac terminar, Emily acaba voltando seus sentimentos para Courtney DiLaurentis (vulgo Alisson DiLaurentis disfarçada) e nunca mais Isaac é lembrando por ela. Até aqui entendemos bem: Emily não deu certo com Isaac, quer esquecê-lo e, de repente, há uma garota bonita afim dela. Emily não vê necessidade em se emaranhar mais pelo entendimento de sua sexualidade.

O problema é quando mais a frente, logo no último arco da série, é citado que Emily é Lésbica, quando o entendimento anterior é que ela era bissexual — talvez ela tenha o interesse maior por garotas, mas seu envolvimento com Isaac demonstra que ela é, sim, bissexual!

É então que podemos recapitular a trama do terceiro arco quando Emily deu a luz a um bebê fruto do seu relacionamento com Isaac Colbert, e como nada é fácil na vida das Pretty Little Liars, todo o drama envolvendo a recém-nascida carrega um livro completo da série. Ao unirmos essa parte da história com a parte do último arco em que dá certeza que Emily é lésbica, percebemos que a autora utilizou do romance com Isaac apenas para gerar outra trama seguinte — é quase como se ela tivesse utilizado a “passageira” bissexualidade de Emily apenas para seguir com a história.

Textos assim que tratam tão erroneamente qualquer sexualidade ou identidade acabam passando mensagens de cunho problemático; no caso de PLL acabou ficando no ar que quando estava com Isaac, Emily estava apenas confusa ou carente de tentar se relacionar com um garoto.

Esse erro é muito comum em outras obras, algumas até mesmo de pessoas LGBTQIA+, que acabam reforçando a invisibilidade Bissexual.

Para algumas pessoas o erro da representação sexual de Emily pode não ter peso nenhum para a história, mas pode pesar demais para uma pessoa que ainda esteja tentando se entender. É claro que é ótimo que a autora tenha se esforçado para colocar a representatividade na história, mas seria ainda melhor se a questão fosse tratada de forma correta e com qualidade.


*Este é um texto de opinião que reflete apenas o ponto de vista do autor.
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